quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tempo em A MOÇA TECELÃ

Harmonia com o tempo Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava. Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias. Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. Mas, tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao lado. O texto inicia com uma conjunção entre a moça tecelã e o tempo, bem como tudo que está relacionado a ele: as estações (chuva, calor), as unidades de tempo (dia, noite), a temperatura (quente, frio), a cronologia (hora a hora, primeira vez). Ela está em conjunção com todos esses elementos figurativizados no discurso, que relacionam seus sentimentos e seu saber (o tecer). Os verbos acionam ações vinculadas ao tempo, como acordava, chegando, ia passando, (nunca) acabava, passava, dormia, e mantendo a coerência do texto. A moça age sempre em harmonia com o tempo, embora interfira nele com gentileza quando, por exemplo, desenha a chuva para refrescar as pétalas que sofrem com o forte calor. E sabendo que após o frio (outono/inverno) deve vir o calor (primavera/verão), ela traz/borda o sol. A interferência é feita pelo seu dom, o tecer. Ela tece a natureza, a vida, a beleza, a arte, pois são seus tapetes mágicos que ganham formas e geram vidas. Há uma duração definida pelo tempo e pelo seu trabalho manual. trabalhar), prudente (esperava a própria natureza se manifestar), humilde ( O destinador do sujeito moça tecelã era o tempo, ou a natureza, que a manipulava através dos ciclos sazonais. Ela aceitava esse contrato, pois lhe “parecia confiável”. Mas, por um sentimento de falta, ou até mesmo por questões da moralidade que o grupo social determina, ela rompe o contrato para fazer o seu próprio tempo, preenchido com um marido e os possíveis filhos.

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