quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Mais MOÇA TECELÃ

Em A moça tecelã, Colasanti apresenta uma protagonista que inicialmente tece a convenção, o socialmente adequado, para posteriormente viver a pertinência da revisão e da reconstrução. No livro A moça tecelã, escrito por Marina Colasanti e ilustrado através de bordados sobre desenhos de Demóstenes Vargas, a protagonista da trama, tece a manhã, tece a tarde, tece a noite, tece sua vida, seus sonhos e desejos, mas sobretudo, tem a possibilidade de desmanchar seu bordado quando ele se apresenta diferente de seu sonho. A moça tecelã vive a pertinência da revisão, do recomeço e da reconstrução. Mas o que tece efetivamente a moça tecelã? Ela tece o hábito, a convenção; aquilo que gerações e mais gerações foram se acostumando a considerar o padrão. Ela tece o status quo. Acordando um pouco antes do amanhecer, ela logo se senta em seu tear e, com linha clara, desenha o horizonte para começar o dia. Para sol forte, ela escolhe lãs mais vivas; para a penumbra seguida da chuva, opta por lãs cinzentas. Seus bordados acompanham o dia, inicialmente, em perfeita harmonia. Da reprodução da realidade à construção de uma realidade particular, o percurso da protagonista se deu logo na primeira página do livro. Assim, quando o vento e o frio passam muitos dias brigando com as folhas e com os pássaros, logo a moça resolve tecer o sol com seus fios dourados, para restabelecer a calma na natureza. Em certa passagem do texto, Colasanti esclarece: Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. Com o desenrolar da narrativa, o tecer foi se transformando em um ofício solitário e, conseqüentemente, a construção de uma realidade particular foi ganhando espaço nos bordados da moça. Sozinha sentiu-se mal, inadequada, talvez distante do que a convenção enfatiza, pois, em um mundo padronizado, meninas brincam, moças casam, mulheres têm filhos. Logo, a moça tecelã optou por fazer parte, por se inserir em um contexto que privilegia o igual em detrimento das diferenças e, então, teceu um marido. Mal terminou seu bordado, assim como o vento e o frio cederam ao sol que extrapolou o bordado, assim como o peixe extrapolou o bordado quando a moça sentiu fome, o marido bateu a porta e, durante algum tempo, fez a felicidade da moça. Contudo, mais uma vez atendendo ao que gerações e gerações nos passaram como convenção, a moça imaginava tecer filhos, enquanto o marido, sabendo do poder do tear, imaginava ascender financeiramente. Ela queria ser. Ele queria ter. De início, ele exigiu uma casa melhor, depois um palácio, estrebarias, cavalos, cofres, moedas. Tudo, ordenando o uso das mais belas lãs, tudo determinando que a mulher habitasse a mais alta torre do palácio e tecesse sem cessar. Enfim,aparentemente, no desenrolar da narrativa o ter vencia o ser. O marido exigia, amulher fazia e nós leitores recuperávamos em nossas memórias de leituras a história de gerações e mais gerações que viam as suas convenções estabelecidas, reforçadas e não analisadas.

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