quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A MOÇA TECELÃ e a relação com outros textos

Uma representação importante na obra aqui analisada é o ofício de tecer. No período medieval, as camponesas trabalhavam muito fiando a lã, tecendo, cuidando dos filhos e cultivando a terra. Por conseguinte, é possível perceber intertextos da literatura clássica n'A moça tecelã. Esses traços intertextuais resgatam, no verbal e no não-verbal, elementos da mitologia e dos contos de fada como a própria moça tecelã, palácio, escadarias, carruagens, jardins, torres, príncipe... Os intertextos também se entrecruzam no tocante à relação de poder, ao desejo, à união homem/mulher, ao trabalho com o tear e ao dom da mulher que, ao fiar seu destino, consegue transformar a realidade à sua volta. A moça tecelã é um conto riquíssimo que dialoga com as histórias tradicionais, mantendo uma intertextualidade implícita do tipo paródia. Por ser uma história que carrega as marcas de um novo tempo, revela uma jovem capaz de recompor seus sentimentos, romper com a secular, tradicional e rotineira submissão e retornar à liberdade para viver seus sonhos de mulher. O texto de Marina Colasanti remete o leitor ao papel da mulher medieval, que durante muito tempo ficou à sombra de um mundo dominado pelo homem. Na Idade Média os homens da Igreja acreditavam que a mulher era criatura débil e suscetível às tentações, e que só o esposo poderia detê-la. Por isso, através do matrimônio, a mulher ficava sob o controle do marido. A autora imprimiu marcas desse período no seu conto, ao construir uma personagem que tinha poderes com o fiar e que foi aprisionada pelo marido, que controlou e limitou esses poderes, com a maior naturalidade. Ainda no período medieval, a maternidade e o papel da boa esposa eram exaltados. No matrimônio, o marido tinha a função de dominar a mulher, educá-la e fazer com que tivesse uma vida pura, casta, ilibada. Acreditava-se que só o trabalho doméstico, realizado em silêncio, poderia vencer os arroubos alimentados pela mulher. Remete-nos o texto, também, à clausura feminina. Assim como a protagonista da história, a mulher medieval se submetia a uma separação do marido no interior da própria casa. O encontro entre o marido e a esposa tinha a função de fecundação. Percebe-se que esse distanciamento, essa separação, principalmente de corpos, fica marcada no seguinte trecho: "Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu." Uma representação importante na obra aqui analisada é o ofício de tecer. No período medieval, as camponesas trabalhavam muito fiando a lã, tecendo, cuidando dos filhos e cultivando a terra. Existe também na História da Literatura um considerável repertório de contos e mitos que retratam das mulheres que fiam e tecem. Dentre elas, destacamos algumas que mantêm relações intertextuais com A moça tecelã, como a lenda de Aracne, as Parcas (ou Moiras - três irmãs fiandeiras), Rumpelstiltskin e o mito de Penélope. A lenda da Aracne (pertencente à mitologia clássica) e A moça tecelã se entrelaçam em pontos importantes: ambas tratam do poder, do convencimento e do castigo. Eis um trecho dessa lenda: "Há muito, muito tempo, vivia uma moça que era a maior tecelã do mundo. Os tecidos e tapeçarias que fazia eram tão deslumbrantes que todos se admirava e jurava que nunca tinha visto nada igual. Ela foi ficando muito convencida e começou a dizer que tecia melhor do que qualquer outra, até mesmo do que as deusas. Melhor até do que Minerva (justamente a deusa que lhe ensinara todos os segredos da arte de tecer). Então a divindade resolveu lhe dar uma lição e a desafiou para um duelo de tecelagem. Cada uma se sentou diante do tear e começaram o labor. Minerva fez um imenso tapete com histórias de pessoas que desafiavam os deuses e acabavam muito mal. Enquanto isso, Aracne ia tecendo seus fios e mostrando crimes que os deuses haviam cometido. E a tapeçaria da moça era tão bem feita que a deusa teve que reconhecer sua perfeição. Ela não podia matar a tecelã; mas bateu nela com seu bastão e a transformou numa aranha, condenada a tecer para sempre..." (MACHADO, 2006) Assim se percebe que A moça tecelã, convencida do seu poder, tece o homem dos seus sonhos; porém, como Aracne, ela acaba castigada, tornando-se escrava da própria criação. O jogo dialógico entre o conto colasantiano e a história das Parcas ocorre ao se definir e interferir no destino das pessoas. Assim como a moça tecelã sonhou, planejou, construiu e destruiu seu marido, as irmãs fiandeiras determinavam o destino humano, especialmente a duração de vida de uma pessoa. Elas eram responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida. A fiandeira Cloto segurava o fuso e puxava o fio; Láquesis o enrolava, registrando o filme da vida e a base da existência futura, e Átropos o cortava, indicando o evento morte. Essas irmãs eram dotadas de força sobrenatural e ninguém conseguia manipulá-las. Conta-se porém que o deus Ares foi o único capaz de submeter as moiras à sua vontade. Eis um trecho sobre essa lenda: "Era uma vez três irmãs que passavam o tempo manipulando o fio da vida das pessoas. A primeira tinha um polegar enorme, porque era com ele que ela puxava o fio do chumaço de lã no fuso, e fazia as meadas, comandando os nascimentos. A segunda tinha um beição enorme, porque era nele que ela molhava o fio para enrolar os novelos, determinando os destinos. A terceira tinha os dentes afiados, porque era com eles que cortava a linha, marcando a hora da morte dos homens e mulheres..." (MACHADO, 2006)

Nenhum comentário:

Postar um comentário